sábado, 2 de maio de 2020

Ele

Era uma criança tranquila no limiar da puberdade, seguro e certo que do alto dos seus aninhos já vividos saberia o suficiente para tomar as decisões certas. Nunca punha em causa as suas atitudes, as suas birras, e muito menos os seus caprichos mesmo que com esses últimos menosprezasse os outros. Afinal tinha crescido no seio de um família que lhe voava toda a sua devoção. Desde cedo, por infortúnio da vida, fora rejeitado pelo pai mas de quem herdera autonomia financeira e por isso soubera desde logo que estaria só neste mundo, que não precisaria de ninguém ou somente o estrito necessário para se mover de uma forma confortável, satisfazer as suas necessidades primárias.
Por vezes, queria colo, não importava muito de quem seriam os braços da mulher que lhe poderia proporcionar o aconchego de um peito generoso, quente e pulsante, as coxas roliças, delicadas e afectuosas o suficiente para envolvê-lo. 
Outras vezes, brincar ao homenzinho, simulando uma maturidade de quem caminha paulatinamente, era o seu passatempo preferido. Encontrava-se com amigos e simulava ser um homenzinho bem resolvido, preocupado com   as perspectivas de um futuro incerto, logo ele, cujo futuro estaria já bem traçado, inquieto com o bem estar das pessoas, logo ele, que pouco ou nada se dedicara aos outros. Mas sim, tinha esse carisma de uma criança sabedora, tinha esse egoísmo tão entranhado que para ele não fora mais do que instinto de proteção.
Contudo ainda só tinha 53 anos e uma vida pela frente para aprender...


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